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sexta-feira, 12 de junho de 2015

POESIA POPULAR NORDESTINA

Corria o ano de 1955.  No município paraibano de Campina Grande, alguns boêmios que faziam uma serena foram presos e liberados no dia seguinte. Entretanto o violão ficou detido.
Tomando conhecimento do acontecido um  jovem advogado, e  poeta já famoso, que posteriormente seria eleito  vereador, depois prefeito de Campina Grande, deputado estadual, governador do Estado e Senador da República,  de nome  Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca solicitando a liberação do instrumento musical.
A petição judicial foi feita em versos e ficou conhecida como: "HABEAS PINHO".

 

Vamos agora assistir o  vídeo abaixo, onde o próprio Ronaldo declama sua "petição poética", recheada de lirismo. 
Bira Viegas  

   video  

 HABEAS PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca :
O instrumento do crime que se arrola
Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola.
É simplesmente, doutor, um violão.
Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
De quem o ouviu vibrar na solidão.
O violão é sempre uma ternura,
Instrumento de amor e de saudade.
Ao crime ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.
O violão é próprio dos cantores,
Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida
Sufocando suas próprias dores.
O violão é música e é canção,
É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia,
É adorno espiritual do coração.
Seu viver, como o nosso, é transitório,
Porém seu destino se perpétua.
Ele nasceu para cantar na rua
E não para ser arquivo de Cartório.
Mande soltá-lo pelo Amor da noite
Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite
De suas cordas leves e sonoras.
Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
Será crime, e afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando na rua as suas dôres?
É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento.
Juntando esta petição aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO.

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura sem perder o ponto deu a sentença no mesmo tom:

"Para que eu não carregue
Muito remorso no coração,
Determino que seja entregue,
Ao seu dono, o malfadado violão!“

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