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sábado, 28 de julho de 2018

CRÔNICA

- DR. JANUÁRIO -
Umberto Peregrino

O majestoso prédio da "Maternidade de Natal" sugere-me sempre a lembrança do seu criador, Dr. Januário Cicco. Homem curioso, paradoxal. Tinha pose de orgulhoso, era ríspido no trato, mas por dentro que bondade de coração e com que totalidade soube consagra-se à causa das dores humanas!
Quando Natal possuía apenas uns três ou quatro médicos era um deles e manteve o único hospital da cidade, onde fazia de cirurgião, de clínico, de tudo para todos. Mais tarde, quando outros médicos povoaram a cidade e começaram a desafoga-lo, também no hospital, Dr. Januário se lançou à construção da maternidade. Anos sobre anos foram consumidos enquanto a obra crescia, pois crescia devagar. Os recursos pingavam muito inferiores ao arrojo do seu idealizador. E quando a casa estava afinal pronta, à espera do equipamento, o último problema: foi subitamente ocupada por um hospital militar, naquele grave momento em que a conflagração mundial transformou Natal em praça de guerra.
Aí não haveria que objetar, era esforço da guerra, ao qual não se pode negar nenhum meio, nem criar o menor embaraço. Assim, porém, que cessaram as razões superiores para a ocupação da sua maternidade, o Dr. Januário entrou a lutar por recuperá-la. E, ao que todos sabem em Natal, chegou a ser atrevido dirigindo-se a excelsas autoridades que não davam ouvidos aos seus legítimos reclamos.
A Maternidade de Natal foi, portanto obra do idealismo e da pugnacidade do Dr. Januário Cicco. Singular é que de princípio o empreendimento parecia grande demais para a cidade, superior às suas forças, excessivo para as suas necessidades. Raciocinava-se com o pauperismo da nossa cidade, com a sua humildade material, ao passo que o Dr. Januário pensava apenas na causa a que ia servir, tão alta, tão decisiva para o destino da sua gente, que nada que se lhe desse seria exagerado. E aconteceu uma coisa espantosa: Natal pôs-se ao nível da sua maternidade, como se esta lhe tivesse servido de guia, de referência para a prodigiosa ascensão...
A esta hora Januário Cicco repousa num dos compartimentos de outra obra sua, o monumento que mandou erguer para servir de túmulo à filha única, Ivete. Nele o velho pai desabafou a inconsolável dor de perdê-la e toda a ternura que dispensava o homem só. Ivete fora fisicamente frágil, morrendo muito jovem, e estava noiva.



Quem sabe se se explicaria por aí, por essa frustração, a fervorosa determinação com que Januário Cicco se consagrou à criação daquela opulenta maternidade?


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Do livro: 'CRÔNICA DE UMA CIDADE CHAMADA NATAL', de autoria do escritor Umberto Peregrino. Col. Edições Clima - Vol. 69 / Natal-RN, em junho de 1989.

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