Gêneros de Poesia Popular
Francisco Linhares e Otacílio Batista
Francisco Linhares e Otacílio Batista
Entre as criações dos
poetas clássicos, que vieram a ser usadas pelos nossos cantadores, estão a
Quadra, a Décima, a Sextilha em decassílabo com rimas cruzadas, e sua variante.
A Sextilha com rimas
cruzadas originou-se da Oitava de Ariosto, estilo que Sá de Miranda (irmão de
Mem de Sá), introduziu em Portugal, no século XVI, e que possibilitou a Camões
realizar sua imortal obra "Os Lusíadas".
Contando-se com os
gêneros mais usados, com os de pouca utilização, ou com os que se encontram
completamente abandonados para o improviso, a "Poesia Popular" possui
trinta e seis modalidades, número verdadeiramente espantoso, que vem, através
dos tempos, demonstrar o grande poder criativo dos nossos bardos matutos.
Até à época da famosa
peleja de Francisco Romano Caluete com Inácio da Catingueira, o estilo
preferido pelos cantadores era a Quadra. Após isso, apareceu a Sextilha,
pertencente à família dos setessílabos, modalidade essa usada, não só nos
grandes debates, mas, também, na abertura de qualquer programa de viola.
"É a Deusa inspiradora dos poetas repentistas". Faremos, a seguir, um
estudo dos principais gêneros usados pelos nossos violeiros.
Sextilha
Talvez, por ser mais
fácil, seja o gênero preferido pelos nossos repentistas, principalmente no
início das apresentações. A Sextilha é uma estrofe com rimas deslocadas,
constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes
que têm a mesma significação. Na Sextilha, rimam as linhas pares entre si,
conservando as demais em versos brancos. Leandro Gomes de Barros, grande
escritor da Literatura de Cordel, filho de Pombal, Estado da Paraíba, escreveu:
Meus versos inda são do tempo
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.
Que as coisas eram de graça:
Pano medido por vara,
Terra medida por braça,
E um cabelo da barba
Era uma letra na praça.
Outro exemplo que
daremos é o do ceguinho anônimo, que, após a morte de sua desventurada mãe e
guia, chorou, com os olhos d'alma, seu infortúnio:
Já tive muito prazer,
Hoje só tenho agonia!
Não sinto porque sou cego,
Eu sinto é falta do guia!
Quando mamãe era viva,
Eu era um cego que via!
Hoje só tenho agonia!
Não sinto porque sou cego,
Eu sinto é falta do guia!
Quando mamãe era viva,
Eu era um cego que via!
Ou, ainda, a de
Francisco Pequeno, repentista paraibano, nesta inteligente análise:
Uma morrinha no gado
É derrota em fazendeiro,
E um cavalo ruim
derrota dum vaqueiro!
A derrota do país
É dever no estrangeiro!
É derrota em fazendeiro,
E um cavalo ruim
derrota dum vaqueiro!
A derrota do país
É dever no estrangeiro!
Sete Linhas ou Sete Pés
No início do século
atual, o Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador fez uma
adaptação à Sextilha, criando o estilo de sete versos, também chamado de sete
linhas ou de sete pés, rimando os versos pares até o quarto, como na Sextilha;
o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto. Exemplifiquemos
com o próprio criador do gênero:
Amigo José Gonçalves,
Amanhã cedinho, vá
A Coatis, onde reside
Compadre João Pirauá;
Diga a ele dessa vez,
Que amanhã das seis a seis,
Deus querendo, eu chego lá!
Amanhã cedinho, vá
A Coatis, onde reside
Compadre João Pirauá;
Diga a ele dessa vez,
Que amanhã das seis a seis,
Deus querendo, eu chego lá!
José Duda do Zumbi
(Manoel Galdino da Silva Duda), no ocaso da vida, com a experiência da idade, disse
para José Miguel, jovem companheiro, com quem duelava:
Fui moço, hoje estou velho!
Pois o tempo tudo muda!
Já fui um dos cantadores
Chamado Deus nos acuda ...
Este que estão vendo aqui
Foi Zé Duda do Zumbi!
Hoje Zumbi do Zé Duda!
Pois o tempo tudo muda!
Já fui um dos cantadores
Chamado Deus nos acuda ...
Este que estão vendo aqui
Foi Zé Duda do Zumbi!
Hoje Zumbi do Zé Duda!
Moirões
Dentro da contextura
da Poesia Popular, o Moirão tem sido o gênero a sofrer grandes variações ao
longo do tempo. "É uma modalidade, onde os cantadores se revezam dentro da
mesma estrofe”. No século passado, o Moirão em quintilha substituiu o Moirão de
seis versos, ambos em desuso. No Moirão de seis linhas, um Cantador fazia dois
versos, o outro intercalava com dois, e o iniciante fechava a estrofe. Vejamos
um Moirão de seis linhas, cantado por Romano e Inácio:
I - Seu Romano, estão dizendo
Que nós não cantamos bem!
R- Pra cantar igual a nós,
Aqui, não vejo ninguém!
I - E o diabo que disse isto
É o pior que aqui tem!
Que nós não cantamos bem!
R- Pra cantar igual a nós,
Aqui, não vejo ninguém!
I - E o diabo que disse isto
É o pior que aqui tem!
No Moirão de cinco
versos, que veio depois do de seis, havia um revezamento dos cantadores, nas
duas linhas iniciais da estrofe, cabendo ao primeiro os três últimos versos
para o fechamento da estância. Do encontro entre os paraibanos Romano Elias da
Paz e Francisco Pequeno, colheu-se:
F.P. - No Mourão não deixo nó!
R.E. - O meu eu lavro de enxó!
F.P. - Colega estou pesaroso...
No recinto primoroso,
Sei que fico a cantar só!
R.E. - O meu eu lavro de enxó!
F.P. - Colega estou pesaroso...
No recinto primoroso,
Sei que fico a cantar só!
Moirão de Sete Pés
O Moirão de sete pés
é o mais usado atualmente. Formado por uma estrofe de sete linhas, cabendo, ao
iniciante, a formação de cinco versos, isto é, os dois primeiros e os três
finais; enquanto a cargo do segundo cantador ficam os versos de ordem três e
quatro. O pernambucano Agostinho Lopes dos Santos e José Bernardino de Oliveira
assim iniciam um duelo:
A.L. Não vã você achar ruim
Este Mourão a doer!
J.B. Eu acredito Agostinho
Naquilo que posso ver!
A.L.Companheiro, não se gabe,
Que a pessoa que não sabe,
Agrava a Deus sem querer!
Este Mourão a doer!
J.B. Eu acredito Agostinho
Naquilo que posso ver!
A.L.Companheiro, não se gabe,
Que a pessoa que não sabe,
Agrava a Deus sem querer!
Esse gênero pode ser cantado por três
violeiros. Pedra Azul inicia:
Vou dar começo à questão
Pra ver quem ganha no fim!
Pra ver quem ganha no fim!
Canhotinho, referindo-se a Severino
Pinto, que tomava parte da porfia, foi mais agressivo:
Eu morro e não tenho medo
Dum Pinto pelado assim!
Dum Pinto pelado assim!
Pinto, que não perdoa, finalizou
violento:
Sou pelado, sem canhão,
Por causa de um beliscão
Que tua mãe deu em mim!
Por causa de um beliscão
Que tua mãe deu em mim!
Moirão Trocado
A diferença deste
gênero para o anterior está exclusivamente no aparecimento de palavras que se
alternam nas quatro primeiras linhas da estância. Lourival Batista e Severino
Pinto dão uma demonstração deste estilo:
L. Eu, da graça, faço o riso,
E, do riso, faço a graça!
P. E da massa, faço o pão,
E do pão, eu faço a massa!
L. Você desgraçou a peça:
Que u'a misturada dessa
Não há padeiro que faça!
E, do riso, faço a graça!
P. E da massa, faço o pão,
E do pão, eu faço a massa!
L. Você desgraçou a peça:
Que u'a misturada dessa
Não há padeiro que faça!
Moirão que Você Cai
É um gênero muito
apreciado, com versos de sete sílabas, como nos demais, onde as estrofes aparecem
com doze linhas, havendo quatro versos comuns a elas: terceiro, sexto, nono e
décimo segundo. O iniciante é responsável pela formação dos versos: primeiro,
segundo, terceiro, sétimo, oitavo, décimo, décimo primeiro e décimo segundo.
Ficando os demais a cargo do parceiro intercalante. Apreciemos, com Lourival e
Otacílio, um Moirão que você cai:
L. Meu irmão, a hora é esta,
De travar-se um desafio!
Lá vai uma, duas e três ...
O. Mas, em luta eu não confio
Porque desanima a festa!
Lá vai quatro, cinco e seis ...
L. Meus versos ninguém detesta
Porque desafio distrai!
O. Cuidado que você cai...
L. Caio tomando sorvete,
Você levando cacete,
Se for por dez pés lá vai!
De travar-se um desafio!
Lá vai uma, duas e três ...
O. Mas, em luta eu não confio
Porque desanima a festa!
Lá vai quatro, cinco e seis ...
L. Meus versos ninguém detesta
Porque desafio distrai!
O. Cuidado que você cai...
L. Caio tomando sorvete,
Você levando cacete,
Se for por dez pés lá vai!
Moirão Voltado
Gênero relativamente
novo, com estrofe de treze versos de sete sílabas, em que os preliantes vão se
alternando até a oitava linha, para, em seguida, unirem suas vozes, como em
coro, neste estribilho:
Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Isso é que é voltar Mourão!
Em seguida, repetem a
oitava linha com o estribilho acima. Para melhor compreensão, imaginemos os
cantadores A e B:
A. Tudo, neste mundo, volta.
B. Com você, combino eu!
A. Volta o rico e o plebeu;
B. Volta quem prende e quem solta ...
A. Volta a paz e a revolta;
B. Volta o sim e volta o não!
A. Volta até Napoleão
B. Que há tempo está sepultado...
A/B Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Que há tempo está sepultado...
Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
B. Com você, combino eu!
A. Volta o rico e o plebeu;
B. Volta quem prende e quem solta ...
A. Volta a paz e a revolta;
B. Volta o sim e volta o não!
A. Volta até Napoleão
B. Que há tempo está sepultado...
A/B Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Que há tempo está sepultado...
Isso é que é Mourão voltado,
Isso é que é voltar Mourão!
Décima
Embora de origem
clássica, é a Décima um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia
Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os
cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a
estância a receber a denominação de glosa. Como o próprio nome diz, Décima é
uma estrofe ou estância de dez versos de sete sílabas, assim distribuídos: o
primeiro, rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com
o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. De Antônio Ugolino Nunes da Costa
(Ugolino do Sabugi), primeiro grande cantador brasileiro, extraímos duas
estrofes, em Décima, de seu famoso poema "As obras da Natureza":
As obras da Natureza
São de tanta perfeição,
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza!
Para imitar a beleza
Das nuvens com suas cores,
Se desmanchando em louvores
De um manto adamascado,
O artista, com cuidado,
Da arte, aplica os primores.
São de tanta perfeição,
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza!
Para imitar a beleza
Das nuvens com suas cores,
Se desmanchando em louvores
De um manto adamascado,
O artista, com cuidado,
Da arte, aplica os primores.
Brilham, nos prados, verdumes
De um tapete aveludado;
Brilha o rochedo escalado,
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam tais gumes,
Que a gente, os observando,
Vê como que se alongando,
Sumir-se na imensidade ...
Nossa visibilidade
os perde se está olhando.
De um tapete aveludado;
Brilha o rochedo escalado,
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam tais gumes,
Que a gente, os observando,
Vê como que se alongando,
Sumir-se na imensidade ...
Nossa visibilidade
os perde se está olhando.
O mote é uma sentença
ou pensamento, formado de um ou dois versos, com que se finalizam as estrofes.
Os primeiros motes eram dados em Quadra, ficando o poeta obrigado a improvisar
quatro Décimas, contendo cada uma, pela ordem, um verso ou linha da Quadra. Com
a evolução, o mote passou de quatro versos para dois, e, mais raramente, usa-se
o de um verso. O mote de duas linhas pode-se apresentar de duas maneiras. Na
primeira, já em desuso, a quarta linha da estrofe é formada pelo primeiro verso
do mote e a décima pelo segundo. Exemplifiquemos com o mote dado pelo Dr.
Raimundo Asfora, descendente de árabe, ao companheiro Otacílio Batista:
Tenho n'alma as tatuagens
Da minha origem cigana.
Da minha origem cigana.
Apreciemos a técnica
do valoroso artista, na formação das estrofes:
Fui criado entre as miragens,
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n'alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!
Na solidão do deserto,
De um povo que andava incerto,
Tenho n'alma as tatuagens:
São abstratas imagens
De Alá, que não se profana;
Dos chefes de caravana,
Me orgulho em ser porta-voz:
Os primitivos heróis
Da minha origem cigana!
Os antigos personagens,
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n'alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade Soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!
Defensores dos escravos;
De uma legião de bravos,
Tenho n'alma as tatuagens!
Fugindo às velhas linhagens
Da imposição duridana,
Por vontade Soberana,
Ismael foi peregrino,
O primeiro beduíno
Da minha origem cigana!
Na segunda, os versos
do mote ficam conjugados, isto é, formam as linhas nove e dez da estrofe.
Vejamos a Décima com este final comovente:
Ao pé do monte Calvário,
Jesus chorava e gemia!
Jesus chorava e gemia!
Junto de dois malfeitores,
Via-se um pobre moribundo:
Era o Salvador do mundo,
Senhor de todos senhores!
Refúgio dos pecadores,
De quem sofre nostalgia!
Se quisesse, sairia
Daquele estado precário:
Ao pé do monte Calvário,
Jesus chorava e gemia!
Via-se um pobre moribundo:
Era o Salvador do mundo,
Senhor de todos senhores!
Refúgio dos pecadores,
De quem sofre nostalgia!
Se quisesse, sairia
Daquele estado precário:
Ao pé do monte Calvário,
Jesus chorava e gemia!
O mote de uma linha é
raramente usado. Seu único verso fecha a estrofe.
Tratemos, agora, dos
gêneros variantes da Décima: Martelo agalopado, Galope à beira-mar e a Parcela.
Martelo Agalopado
O Martelo atual,
criação do genial violeiro paraibano Silvino Pirauá Lima, é uma estrofe de dez
versos, em decassílabos, obedecendo à mesma ordem de rima dos versos da Décima.
Todavia, sua denominação não vem do fato de ser empregado como meio de os
contadores se martelarem durante suas pugnas. Sua significação está ligada ao
nome do diplomata francês Jaime de Martelo, nascido na segunda metade do século
XVII, que foi professor de literatura na Universidade de Bolonha, portanto, o
criador do primeiro estilo. Jaime de Martelo suprimiu duas linhas finais da
Oitava de Ariosto, ou Oitava camoniana, formando o que se denominou de Martelo
cruzado, isto é, no Martelo antigo a primeira linha rima com a terceira e a
quinta; a segunda, com a quarta e a sexta. O exemplo deste gênero está na
estrofe do paraibano José Camelo de Meio Rezende:
O orgulho nasceu em noite escura,
E é filho da triste ignorância,
Ao descer o seu corpo à sepultura,
Cai-lhe verme por cima, em abundância,
E seu todo se torna uma figura,
Que nos causa a maior repugnância.
E é filho da triste ignorância,
Ao descer o seu corpo à sepultura,
Cai-lhe verme por cima, em abundância,
E seu todo se torna uma figura,
Que nos causa a maior repugnância.
Depois, como
variante, apareceu o Martelo com rimas destacadas, também denominadas de
Martelo solto ou de Sextilha em decassílabo. O diplomata brasileiro Francisco
Otaviano de Almeida Rosa utilizou-se deste gênero para cantar suas
"Ilusões da Vida":
Quem passou pela vida em branca nuvem,
Num plácido repouso, adormeceu;
Quem não sentiu o trio da desgraça,
Passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu.
Num plácido repouso, adormeceu;
Quem não sentiu o trio da desgraça,
Passou pela vida e não sofreu:
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu.
Feitas essas
considerações sobre os Martelos de seis versos, mostraremos o estilo atual,
variante da Décima, criação do violeiro Silvino Pirauá Lima, conforme estrofe
do poeta lira Flores, citada pelo Dr. Ariano Suassuna, num trabalho sobre os
cantadores:
Quando as tripas da terra mal se
agitam,
E os metais derretidos se confundem,
E os escuros diamantes que se fundem,
Da cratera ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
Grossas bagas de ferro incendiado,
Em redor, deixam tudo sepultado
Só com o som da viola que me ajuda,
Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
Eu cantando Martelo agalopado.
E os metais derretidos se confundem,
E os escuros diamantes que se fundem,
Da cratera ao ar se precipitam.
As vulcânicas ondas que vomitam
Grossas bagas de ferro incendiado,
Em redor, deixam tudo sepultado
Só com o som da viola que me ajuda,
Treme o sol, treme a terra, o tempo muda,
Eu cantando Martelo agalopado.
Esse gênero belo e
difícil Via Crucis dos fracos repentistas, é empregado não só nos grandes
debates, mas nos trabalhos escritos, em geral.
Galope a Beira-Mar
Gênero muito
apreciado pelos apologistas da Poesia Popular que, juntamente com o Martelo,
recebeu a denominação de Décima de versos compridos. O Galope é assim chamado
em virtude de ser empregado mais em temas praieiros. È constituído de uma
estrofe de dez versos de onze sílabas, com o estribilho cuja palavra final é
mar.
Foi criado pelo
violeiro cearense José Pretinho (não o da peleja do cego Aderaldo), filho de
Morada Nova, vaqueiro do "coronel" José Ambrósio, falecido em Lavras
da Mangabeira. Contam que José Pretinho, após levar uma surra, em Martelo, de
Manoel Vieira Machado, Cantador piauiense, veio a Fortaleza e, na Praia de
Iracema, observou o mar, cujo movimento das ondas se parecia com o galope dos
cavalos da fazenda do "coronel" Ambrósio. Criado o estilo, procurou o
adversário para a desforra. Deixou-o aniquilado. Mergulhão de Sousa divulgou o
gênero por todo o Nordeste. Dimas Batista, cantando no Teatro Santa Isabel, em
Recife, improvisou sob aplausos:
Eu cantando a Galope ninguém me
humilha,
Tudo que existe no mar eu aproveito,
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
Em navio, em proa, em bússola e milha!
Medindo a distância para viajar,
Não quero, da rota, jamais me afastar,
Porque me afastando o destino saí torto;
Confio em Deus avistar o meu porto,
Cantando Galope na beira do mar!
Tudo que existe no mar eu aproveito,
Na ilha, no cabo, península, estreito,
Estreito, península, no cabo, na ilha,
Em navio, em proa, em bússola e milha!
Medindo a distância para viajar,
Não quero, da rota, jamais me afastar,
Porque me afastando o destino saí torto;
Confio em Deus avistar o meu porto,
Cantando Galope na beira do mar!
José Limeira, Poeta
do Absurdo, dá-nos exemplo de tremendo disparate:
Conheço, demais, o rio Paraíba,
Que nasce sozinho, lá dentro da praia!
Parece um cambito de pau de "cangaia",
As suas enchentes têm mel de tubiba;
Na frente, recebe o rio Furiba,
E passa correndo pra Madagascar;
Alaga Recife, demora em Dacar,
No tempo de inverno é seco demais:
Foi quando "Oliveiro" enfrentou Ferrabrás,
Que luta pai-d'égua na beira do mar!
Que nasce sozinho, lá dentro da praia!
Parece um cambito de pau de "cangaia",
As suas enchentes têm mel de tubiba;
Na frente, recebe o rio Furiba,
E passa correndo pra Madagascar;
Alaga Recife, demora em Dacar,
No tempo de inverno é seco demais:
Foi quando "Oliveiro" enfrentou Ferrabrás,
Que luta pai-d'égua na beira do mar!
O violeiro cearense
Simplício Pereira da Silva, residente na vila de Barreiras, município de
Redenção, criou um estilo interessante de Galope, que ele denominou de
"Galope por dentro do mato". Trata-se de um gênero que cuida,
exclusivamente, de temas sertanejos. As estrofes abaixo são de sua autoria:
Companheiro, eu do mar não conheço
nada,
Nunca fui à praia e menos ao banho,
Pois o mar é um lago pra mim tão estranho,
Que parece até um mistério de fada...
Eu gosto bastante é de uma caçada,
Lá no meu sertão, muito embora que ingrato!
Pra você não pensar que estou com boato:
Uma meia hora vai pelejar
Pegue lá seu peixe por dentro do mar,
Que vou caçar peba por dentro do mato.
Nunca fui à praia e menos ao banho,
Pois o mar é um lago pra mim tão estranho,
Que parece até um mistério de fada...
Eu gosto bastante é de uma caçada,
Lá no meu sertão, muito embora que ingrato!
Pra você não pensar que estou com boato:
Uma meia hora vai pelejar
Pegue lá seu peixe por dentro do mar,
Que vou caçar peba por dentro do mato.
No sertão, à caçada, eu fui certo dia,
Num mato fechado, bem desconhecido,
Mas eu, na caçada, fui meio atrevido;
Chegando no mato, o sol já pendia ...
Tinha onça por praga, e eu não sabia;
Saí pisando devagar no sapato;
Senti um mau cheiro, pensei que era gato.
Quando vi a onça e a onça me viu:
O corpo tremeu e meu rifle caiu...
Foi carreira feia por dentro do mato!
Num mato fechado, bem desconhecido,
Mas eu, na caçada, fui meio atrevido;
Chegando no mato, o sol já pendia ...
Tinha onça por praga, e eu não sabia;
Saí pisando devagar no sapato;
Senti um mau cheiro, pensei que era gato.
Quando vi a onça e a onça me viu:
O corpo tremeu e meu rifle caiu...
Foi carreira feia por dentro do mato!
Parcela
A Parcela é uma
Décima com versos de quatro ou de cinco sílabas, conhecida também pela
denominação de Décima de versos curtos.
Há cantadores que
ainda usam a Parcela para a "Despedida", que costumeiramente é feita
no final das apresentações. Coutinho Filho, em Violas e Repentes, apresenta
duas estrofes, com quatro sílabas em cada verso, da peleja de Pedra Azul com
Manoel da Luz Ventania:
Eu sou judeu
Para o duelo!
Cantar Martelo
Queria eu!
O pau bateu,
Subiu poeira!
Aqui na feira,
Não fica gente!
Queima a semente
Da bananeira!
Para o duelo!
Cantar Martelo
Queria eu!
O pau bateu,
Subiu poeira!
Aqui na feira,
Não fica gente!
Queima a semente
Da bananeira!
Manoel da Luz
Ventania revidou-o pelo ataque a Bananeiras, terra de seu nascimento:
Sou bananeira...
Do alagadiço!
Você diz isso
Por brincadeira!
Meto a madeira,
Quebro a viola!
Só me consola
Te ver, um dia,
De vara e guia,
Pedindo esmola!
Do alagadiço!
Você diz isso
Por brincadeira!
Meto a madeira,
Quebro a viola!
Só me consola
Te ver, um dia,
De vara e guia,
Pedindo esmola!
Da peleja de José
Félix com o cego Benjamim Mangabeira, recentemente falecido em Fortaleza,
colhemos estas Parcelas de cinco sílabas:
J.F. Sou velho na vida,
Sou feito na arte...
De parte a parte,
Conheço a batida!
Na trilha seguida,
Levanta poeira!
E, na cachoeira,
As águas descendo,
E o povo dizendo:
"Correu, Mangabeira!"
Sou feito na arte...
De parte a parte,
Conheço a batida!
Na trilha seguida,
Levanta poeira!
E, na cachoeira,
As águas descendo,
E o povo dizendo:
"Correu, Mangabeira!"
B.M. Eu dou, tu apanha(s)!
Eu vou e tu fica(s)!
Levando tabica
Por causa da manha!
Foi tua campanha,
Caído no porre. ..
Eu vivo, tu morre(s)!
É no K, é no L!
Conhece, Zé "Fele",
Mangaba não corre!
Eu vou e tu fica(s)!
Levando tabica
Por causa da manha!
Foi tua campanha,
Caído no porre. ..
Eu vivo, tu morre(s)!
É no K, é no L!
Conhece, Zé "Fele",
Mangaba não corre!
Quadrões
Ao longo do tempo, o
Quadrão tem sido o gênero a receber o maior número de alterações, não só na sua
forma interna, mas, também, na estrutura das estrofes, em geral. O Quadrão
antigo é formado por uma estância de oito linhas, pertencente à família dos
setessílabos, rimando o primeiro verso com o segundo e o terceiro; o quarto com
o oitavo, e o quinto com o sexto e o sétimo, contando, no final, o estribilho
de sua denominação. Com Lourival Batista, um Quadrão à antiga:
O Cantador repentista,
Em todo ponto de viste,
Precisa ser um artista
De fina imaginação,
Para dar capricho à arte,
E ter nome em toda parte,
Honrando o grande estandarte
Dos oito pés de Quadrão!
Em todo ponto de viste,
Precisa ser um artista
De fina imaginação,
Para dar capricho à arte,
E ter nome em toda parte,
Honrando o grande estandarte
Dos oito pés de Quadrão!
Posteriormente, o
Quadrão em oito apareceu com ligeira modificação na sua forma interna, isto é,
o quarto verso que rimava somente com o oitavo passou a rimar também com o
quinto. Numa homenagem póstuma ao ilustre mestre Lacerda Furtado, transcrevemos
um Quadrão no novo estilo, por ele escrito e oferecido ao grande cordelista
paraibano Joaquim Batista de Sena:
Namorando a Salomé,
Vi a barca de Noé,
Palestrei com Josué,
Com Jacó e Salomão;
Travei luta com Sansão,
Nadei no delta do Nilo,
Montado num crocodilo,
Cantando os oito em Quadrão!
Vi a barca de Noé,
Palestrei com Josué,
Com Jacó e Salomão;
Travei luta com Sansão,
Nadei no delta do Nilo,
Montado num crocodilo,
Cantando os oito em Quadrão!
Quadrão Trocado
Com versos de doze
sílabas, e conservando a mesma ordem das rimas do estilo anterior, criou-se o
Quadrão trocado, gênero que exige muita segurança e desembaraço do repentista;
apresentando, a partir da terceira linha, palavras que vão se alternando no
verso subseqüente. As duas últimas linhas da estrofe formam o estribilho que se
encerra com a palavra Quadrão. O repentista Dimas Batista improvisou esta
difícil estrofe:
É no sangue, é no povo, é no tipo, é na
raça,
É no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça,
É no pão, é no doce, é no bolo, é na massa:
É na massa, é no bolo, é no doce, é no pão;
É cruzado, é vintém, é pataca, é tostão,
É tostão, é pataca, é vintém, é cruzado;
É Quadrão, é Quadrinha, é Quadrilha, é Quadrado,
É Quadrado, é Quadrilha, é Quadrinha, é Quadrão.
É no riso, é no gozo, é no gosto, é na graça,
É no pão, é no doce, é no bolo, é na massa:
É na massa, é no bolo, é no doce, é no pão;
É cruzado, é vintém, é pataca, é tostão,
É tostão, é pataca, é vintém, é cruzado;
É Quadrão, é Quadrinha, é Quadrilha, é Quadrado,
É Quadrado, é Quadrilha, é Quadrinha, é Quadrão.
Não só na forma, mas
na estrutura, o Quadrão sofreu alterações bem acentuadas. Daí, quatro tipos de
Quadrões incluídos na Décima; todos com o estribilho na última linha da
estrofe.
Coutinho Filho apresenta
de Antônio Batista Guedes, sobrinho de Ugolino do Sabugi, dois tipos de
Quadrões. O primeiro diferença-se do segundo por ser este dialogado:
Longe do mar de Netuno,
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno,
De Anfitrite e de Juno,
Tinha ele a proteção!
Apoio, tendo na mão
Um livro de poesia,
Me ensinou com galhardia
Cantar dez pés em Quadrão!
O cocheiro Faetonte
Percorria o horizonte
No seu coche de tribuno,
De Anfitrite e de Juno,
Tinha ele a proteção!
Apoio, tendo na mão
Um livro de poesia,
Me ensinou com galhardia
Cantar dez pés em Quadrão!
A. Júpiter onipotente,
B. Tendo o trono conquistado,
A. Por ter seu pai expulsado,
B. Do céu traiçoeiramente
A. Porque, de reinar somente,
B. Era a sua pretensão!
A. Da maior constelação,
B. Íris, num carro, desceu,
A. E a inspiração me deu
B. Nestes dez pés a Quadrão!
B. Tendo o trono conquistado,
A. Por ter seu pai expulsado,
B. Do céu traiçoeiramente
A. Porque, de reinar somente,
B. Era a sua pretensão!
A. Da maior constelação,
B. Íris, num carro, desceu,
A. E a inspiração me deu
B. Nestes dez pés a Quadrão!
O Quadrão dialogado
apresenta-se agora, com uma pequena modificação: o último verso deste novo tipo
é cantado pelos dialogantes, e não por um só, como no caso anterior. A estrofe
que se segue é de um desafio dos cantadores cearenses Simplício Pereira da
Silva e Manoel Furtado, quando dialogavam, fazendo referências a um sapo que
penetrava no salão, onde contavam:
S.P. Colega, lá vem um sapo,
M.F. Ou por outra, um cururu!
S.P. Não vem vestido nem nu,
M.F. Porém vem batendo o papo!
S.P. Eu, nele, dou um sopapo!
M.F. Boto fora do salão ...
S.P. Pego, nele, com a mão;
M.F. Depois rebolo no mato ...
S.P. O guaxinim come o fato,
S.P. e M.F. Lá se vai dez a Quadrão!
M.F. Ou por outra, um cururu!
S.P. Não vem vestido nem nu,
M.F. Porém vem batendo o papo!
S.P. Eu, nele, dou um sopapo!
M.F. Boto fora do salão ...
S.P. Pego, nele, com a mão;
M.F. Depois rebolo no mato ...
S.P. O guaxinim come o fato,
S.P. e M.F. Lá se vai dez a Quadrão!
Há pouco, os irmãos
Batista criaram este gênero de Quadrão em dez, que se diferença do estilo
anterior, apenas por ser constituído de perguntas e respostas, o que vem a
exigir grande parcela de esforço e de dom poético: cada pergunta deve ser
respondida com inteligência e segurança, para o bom êxito da estrofe.
Imaginemos dois cantadores (A e B), num duelo cerrado:
A. Para que serve a ciência?
B. Para evoluir o mundo.
A. Para que serve um segundo?
B. Para aumentar a existência.
A. Para que serve a seqüência?
B. Pra dar continuação.
A. Pra que serviu Lampião?
B. Pra dar trabalho a soldado,
A. Naquele tempo passado...
A e B. Lá se vai dez a Quadrão!
B. Para evoluir o mundo.
A. Para que serve um segundo?
B. Para aumentar a existência.
A. Para que serve a seqüência?
B. Pra dar continuação.
A. Pra que serviu Lampião?
B. Pra dar trabalho a soldado,
A. Naquele tempo passado...
A e B. Lá se vai dez a Quadrão!
Gabinete
Gênero que foi muito
apreciado pelo imortal cego Aderaldo, porém de pouco uso atualmente. É cantado
em versos de sete sílabas, sem número de linhas determinado, e com estribilhos
nas linhas: sete, oito, nove, dez e nas duas últimas. Otacílio Batista
exemplifica:
O povo deseja ouvir
Um Gabinete bonito;
Poeta, só acredito
Se você não me mentir.
Trate de se prevenir
Para poder cantar bem
Eu comprei um cartão
Para viajar no trem:
Sem cartão ninguém vai,
Sem cartão ninguém vem!
Vai e vem, vem e vai,
Vem e vai, vai e vem.
Quem não tem o que eu tenho,
Morre danado e não tem!
Quem estiver com inveja,
Se esforce e faça também ...
Cavalo bom é ginete;
Quem não canta Gabinete,
Não é cantor pra ninguém!
Um Gabinete bonito;
Poeta, só acredito
Se você não me mentir.
Trate de se prevenir
Para poder cantar bem
Eu comprei um cartão
Para viajar no trem:
Sem cartão ninguém vai,
Sem cartão ninguém vem!
Vai e vem, vem e vai,
Vem e vai, vai e vem.
Quem não tem o que eu tenho,
Morre danado e não tem!
Quem estiver com inveja,
Se esforce e faça também ...
Cavalo bom é ginete;
Quem não canta Gabinete,
Não é cantor pra ninguém!
O violeiro cearense,
Alberto Porfírio, criou um estilo de Gabinete mais interessante e simplificado:
o Cantador faz uma Quadra, em seguida, seis versos de onze sílabas, com rimas
que se casam (rimas iguais), desenvolvendo, nestes, o tema da Quadra. Para
finalizar, faz três versos de sete sílabas, rimando o primeiro com o estribilho
(Quem não canta Gabinete), e o terceiro com os versos da Sextilha. O exemplo
abaixo é do próprio criador do estilo:
Quem é forte não se gaba,
Não se altera nem se agita,
Mas qualquer homem se acaba
Por uma mulher bonita!
Não se altera nem se agita,
Mas qualquer homem se acaba
Por uma mulher bonita!
Amei uma jovem que me queria bem,
Eu gostava dela mais do que ninguém;
Chegou lá um cabra mexendo xerém,
Mas eu tendo raiva, não temo a quem vem!
De faca e de bala, eu brigo com cem...
Quebramos cadeira, víramos um trem!
Eu gostava dela mais do que ninguém;
Chegou lá um cabra mexendo xerém,
Mas eu tendo raiva, não temo a quem vem!
De faca e de bala, eu brigo com cem...
Quebramos cadeira, víramos um trem!
Resolvi foi no cacete;
Quem não canta Gabinete,
Não se diz que canta bem.
Quem não canta Gabinete,
Não se diz que canta bem.
Toada Alagoana
É um gênero pouco
usado, porém muito bonito, em virtude das rimas encadeadas e da agradável
toada. Sirvo-me de uma estrofe de Otacílio Batista, companheiro de trabalho,
para mostrar este gênero:
Vai Otacílio Batista,
Repentista,
Neste momento tão forte,
Num estilo diferente,
No repente,
Correndo em busca da sorte...
Em noite de lua cheia,
Sou a sereia
Dos oceanos do norte!
Repentista,
Neste momento tão forte,
Num estilo diferente,
No repente,
Correndo em busca da sorte...
Em noite de lua cheia,
Sou a sereia
Dos oceanos do norte!
Ao lado da toada
alagoana, existe o Martelo alagoano, cuja diferença do Martelo agalopado está
na toada, que é um pouco mais lenta, bem como no estribilho, que apresenta no
final das estrofes com a palavra de sua denominação.
Meia Quadra
Entre as modalidades
mais difíceis da Poesia popular, está a Meia Quadra, estilo que apresenta
estrofes com número de versos não determinados, e com quatro linhas iguais na
parte final:
Quando eu disser vida e meia,
Você diga meia vida;
Quando eu disser ida e meia,
Você diga meia ida,
Quando eu disser lida e meia,
Você diga meia lida.
Diga coração e meio.
Se eu disser meio coração;
Se eu disser meia baleia,
Você diga meio cação,
Se eu disser meio cação,
Você diga meia baleia;
Quando eu disser Meia Quadra,
Você diz que é Quadra e Meia,
Quando eu disser Quadra e Meia,
Você diz que é Meio Quadrão!
Você diga meia vida;
Quando eu disser ida e meia,
Você diga meia ida,
Quando eu disser lida e meia,
Você diga meia lida.
Diga coração e meio.
Se eu disser meio coração;
Se eu disser meia baleia,
Você diga meio cação,
Se eu disser meio cação,
Você diga meia baleia;
Quando eu disser Meia Quadra,
Você diz que é Quadra e Meia,
Quando eu disser Quadra e Meia,
Você diz que é Meio Quadrão!
Dez Pés de Queixo
Caído
Este gênero, ainda em voga, está incluído na Décima, apresentando, no final de
cada estrofe, este estribilho: "NOS DEZ DE QUEIXO CAÍDO":
É tão grande o meu valor,
Que o mundo todo o conhece;
A poesia se oferece...
Eu, dela, sou professor!
Eu não temo a Cantador
Por mais que seja sabido!
Faz tempo que não divido
O que tenho com ninguém:
Assim vou passando bem
Nos Dez de Queixo Caído!
Que o mundo todo o conhece;
A poesia se oferece...
Eu, dela, sou professor!
Eu não temo a Cantador
Por mais que seja sabido!
Faz tempo que não divido
O que tenho com ninguém:
Assim vou passando bem
Nos Dez de Queixo Caído!
Gemedeira
Pela própria
denominação do gênero, vemos que serve para temas gracejantes. É a Gemedeira um
estilo de poesia, caracterizado pela interposição de verso de quatro, ou,
raramente, de duas sílabas, entre a quinta e a sexta linhas da Sextilha,
formado pelas interjeições: "ai! e ui! ou ai! e hum!" Após cantar
outros estilos com José Soares do Nascimento, Severino Pinto mudou para
Gemedeira:
Cantei Mourão a Galope,
Versejando como entendo!
Vou passar pra Gemedeira,
Como me pedem, eu atendo!
Há pouco, cantei me rindo.
Ai! ai! ui! ui!
Agora canto gemendo!
Versejando como entendo!
Vou passar pra Gemedeira,
Como me pedem, eu atendo!
Há pouco, cantei me rindo.
Ai! ai! ui! ui!
Agora canto gemendo!
Com a supressão de
"ui! ui!", teremos o sexto verso com duas sílabas, conforme estrofe
de José Soares do Nascimento:
Sem querer tirar nem pôr,
Você chora e eu também!
Como nos falta dinheiro,
Tira-se, aqui, de quem tem!
Choro de Cantador liso...
Ai! ai!
Não se oculta de ninguém!
Você chora e eu também!
Como nos falta dinheiro,
Tira-se, aqui, de quem tem!
Choro de Cantador liso...
Ai! ai!
Não se oculta de ninguém!
Dissemos, no início
deste capítulo, que trinta e seis eram os estilos da Poesia Popular. É bem
verdade que não descrevemos esse total, pois achamos melhor estudar aqueles
ainda em uso, com maior ou menor intensidade. Todavia, considerando seus grandes
empregos no passado, faremos um ligeiro estudo sobre a Quadra e sobre a
Ligeira.
Quadra
Definitivamente
retirada da área do improviso, a Quadra é constituída de uma estrofe de quatro
versos, que podem ser de sete ou de dez sílabas. O conhecido escritor cearense
Dr. Manoelito Eduardo Campos, em sua desabusada obra "Cantador, Musa e
Viola" traz esta Quadra famosa, atribuída a José de Matos, cearense do
Cariri:
No seio da Virgem Pura,
Entrou a Divina Graça;
Como entrou, assim saiu,
Qual o sol pela vidraça.
Entrou a Divina Graça;
Como entrou, assim saiu,
Qual o sol pela vidraça.
O jovem trovador
cearense e jornalista gabaritado, César Coelho é o autor destas belíssimas
Quadras, que nos escrevemos com satisfação:
Coisa linda é madrugada,
Com luar pelo terreiro,
Viola em beira de estrada,
Cantiga de violeiro.
Com luar pelo terreiro,
Viola em beira de estrada,
Cantiga de violeiro.
Quero a paz do teu carinho,
Mil cantigas de viola,
Quero ouvir um passarinho,
Que não seja na gaiola ...
Mil cantigas de viola,
Quero ouvir um passarinho,
Que não seja na gaiola ...
Ligeira
Como a Quadra, a
Ligeira está afastada totalmente do terreno do improviso. Sua denominação vem
do fato de ser cantada com a maior rapidez possível. O Cantador fazia versos de
sete sílabas, com rimas obrigatórias para os de ordem par, e sem número de
linhas determinado.
No capítulo anterior,
temos um exemplo de Ligeira, na saudação do poeta Manoel Bandeira aos violeiros
do Nordeste. Finalizando o estudo sobre os gêneros principais da Poesia
Popular, confessamos que o fizemos com o propósito de prestar, aos amantes da
nossa "Poesia Bárbara", certos esclarecimentos que há tempos eram
esperados.

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