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terça-feira, 12 de novembro de 2013

HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE

 - O JORNAL DE ELIAS SOUTO - 

Elias Antonio Ferreira Souto ficou na história da imprensa do Rio Grande do Norte como um dos mais combativos e implacáveis jornalistas, pelo menos até o ano de 1906, quando faleceu, aos 59 anos de idade. Visava particularmente o Senador Pedro Velho e os seus parentes que o sucederam no Governo do Estado, aos quais não dava tréguas, imputando-lhes violentas acusações, “... absorvente oligarquia reinante, donatária deste mísero Rio Grande do Norte, enfeudado por tão detestável dinastia”.
Não deixava também escapar a menor oportunidade de pilheriar. Em versos satíricos, o seu jornal, o “Diário do Natal” noticiava a chegada de Tavares de Lyra do Rio de Janeiro, que vinha assumir o Governo do Estado sucedendo a Alberto Maranhão.

Sim, senhor, eis que chega o Lyra
Do Alberto sucessor
Terceiro da dinastia
Do oligarca Senador

Vão assim os oligarcas
Uns nos outros de encarnando
E os destinos da terra
De uma vez avassalando”.

Foi também pilheriando que noticiou a solenidade de posse do genro de Pedro Velho:
Anteontem, a 1 hora da tarde, realizou-se a posse do novo Governador do Estado, Dr. Augusto Tavares de Lyra... Na ocasião de proferir as palavras de compromisso, quando o auditório conservava absoluto silêncio, os sinos da Matriz dobraram lugubremente sinais por algum defunto, fato que causou lúgubres apreensões ao cortejo oficial, segundo nos informou pessoa que estava na ocasião. À noite diversos admiradores levaram ao Dr. Alberto Maranhão alguns presentes adquiridos por subscrições forçadas entre os funcionários públicos.”
Professor primário, a paralisia que mantinha Elias Souto numa cadeira de rodas não lhe arrefecia a disposição para o combate, nem mesmo quando o Governador, irônico e vingativo, o indicou para Instrutor de Educação Física (naquele tempo, Calistênica) na então distante cidade de Pau dos Ferros. Recusando a transferência insultuosa, foi colocado em disponibilidade. Mas, ao contrário do “Diário” mantido com o sacrifício e a coragem do seu proprietário, “a República”, órgão oficial, dispondo de serviço telegráfico, tinha o privilégio de receber notícias em primeira mão. Era dirigida pelo Dr. Manoel Dantas, educador e pioneiro na pesquisa das tradições populares no Estado, que se filiara à liderança política de Pedro Velho, desde as campanhas da Abolição e da República. Diariamente, ao entardecer, na hora que o jornal saía para circulação, reuniam-se em sua redação, amigos e correligionários do Senador. Intrigavam-se com o “Diário”, que, sem dispor de comunicações com o exterior, de vez em quando se antecipava ao jornal do governo com noticiário em manchete. As investigações levaram ao Tenente Coronel da Guarda Nacional, Tibúrcio Nunes, um dos frequentadores das reuniões vespertinas, como o audacioso informante do adversário. Pra desmascará-lo, levando a folha oposicionista ao ridículo, fazendo-a publicar uma notícia falsa, sensacional, uma cilada foi-lhe astuciosamente preparada. Com os olhos presos a um telegrama, supostamente recebido naquele instante, Manoel Dantas, dirigindo-se a um dos seus colegas de trabalho, declara pesaroso: “Pronto, Zé Pinto, morreu o Papa.” E depois de uma pausa meditativa: “Vamos preparar-lhe todo um noticiário, com biografia, fotografia, etc.”

O coronel, o único de fora que ouvira a notícia extraordinária, desconversou por ali e saiu de mansinho.
Na manhã seguinte, 5 de junho de 1901, para divertimento dos adversários de Elias Souto, o “Diário do Natal”, na certeza de mais um furo jornalístico, com larga tarja preta trazia em manchete a notícia fabricada: “MORREU O PAPA LEÃO XIII”.

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Do livro: HISTÓRIAS QUE NÃO ESTÃO NA HISTÓRIA de autoria do Professor Universitário José de Anchieta Ferreira – Editado pela RN Gráfica e Editora Ltda – Natal – RN, 1989.

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