- O JORNAL DE ELIAS SOUTO -
Elias Antonio Ferreira Souto
ficou na história da imprensa do Rio Grande do Norte como um dos mais
combativos e implacáveis jornalistas, pelo menos até o ano de 1906, quando
faleceu, aos 59 anos de idade. Visava particularmente o Senador Pedro Velho e
os seus parentes que o sucederam no Governo do Estado, aos quais não dava
tréguas, imputando-lhes violentas acusações, “... absorvente oligarquia reinante, donatária deste mísero Rio Grande do
Norte, enfeudado por tão detestável dinastia”.
Não deixava também escapar a
menor oportunidade de pilheriar. Em versos satíricos, o seu jornal, o “Diário
do Natal” noticiava a chegada de Tavares de Lyra do Rio de Janeiro, que vinha
assumir o Governo do Estado sucedendo a Alberto Maranhão.
“Sim, senhor, eis que chega o Lyra
Do Alberto sucessor
Terceiro da dinastia
Do oligarca Senador
Vão assim os oligarcas
Uns nos outros de encarnando
E os destinos da terra
De uma vez avassalando”.
Foi também pilheriando que
noticiou a solenidade de posse do genro de Pedro Velho:
“Anteontem, a 1 hora da tarde, realizou-se a posse do novo Governador do
Estado, Dr. Augusto Tavares de Lyra... Na ocasião de proferir as palavras de
compromisso, quando o auditório conservava absoluto silêncio, os sinos da
Matriz dobraram lugubremente sinais por algum defunto, fato que causou lúgubres
apreensões ao cortejo oficial, segundo nos informou pessoa que estava na
ocasião. À noite diversos admiradores levaram ao Dr. Alberto Maranhão alguns
presentes adquiridos por subscrições forçadas entre os funcionários públicos.”
Professor primário, a paralisia
que mantinha Elias Souto numa cadeira de rodas não lhe arrefecia a disposição
para o combate, nem mesmo quando o Governador, irônico e vingativo, o indicou
para Instrutor de Educação Física (naquele tempo, Calistênica) na então
distante cidade de Pau dos Ferros. Recusando a transferência insultuosa, foi
colocado em disponibilidade. Mas, ao contrário do “Diário” mantido com o
sacrifício e a coragem do seu proprietário, “a República”, órgão oficial,
dispondo de serviço telegráfico, tinha o privilégio de receber notícias em
primeira mão. Era dirigida pelo Dr. Manoel Dantas, educador e pioneiro na
pesquisa das tradições populares no Estado, que se filiara à liderança política
de Pedro Velho, desde as campanhas da Abolição e da República. Diariamente, ao
entardecer, na hora que o jornal saía para circulação, reuniam-se em sua
redação, amigos e correligionários do Senador. Intrigavam-se com o “Diário”,
que, sem dispor de comunicações com o exterior, de vez em quando se antecipava
ao jornal do governo com noticiário em manchete. As investigações levaram ao
Tenente Coronel da Guarda Nacional, Tibúrcio Nunes, um dos frequentadores das
reuniões vespertinas, como o audacioso informante do adversário. Pra
desmascará-lo, levando a folha oposicionista ao ridículo, fazendo-a publicar
uma notícia falsa, sensacional, uma cilada foi-lhe astuciosamente preparada.
Com os olhos presos a um telegrama, supostamente recebido naquele instante,
Manoel Dantas, dirigindo-se a um dos seus colegas de trabalho, declara
pesaroso: “Pronto, Zé Pinto, morreu o Papa.” E depois de uma pausa meditativa:
“Vamos preparar-lhe todo um noticiário, com biografia, fotografia, etc.”
O coronel, o único de fora que ouvira a notícia extraordinária, desconversou por ali e saiu de mansinho.
O coronel, o único de fora que ouvira a notícia extraordinária, desconversou por ali e saiu de mansinho.
Na manhã seguinte, 5 de junho de
1901, para divertimento dos adversários de Elias Souto, o “Diário do Natal”, na
certeza de mais um furo jornalístico, com larga tarja preta trazia em manchete
a notícia fabricada: “MORREU O PAPA LEÃO XIII”.
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Do livro: HISTÓRIAS
QUE NÃO ESTÃO NA HISTÓRIA de autoria do Professor Universitário José de Anchieta Ferreira – Editado
pela RN Gráfica e Editora Ltda – Natal – RN, 1989.
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